Joan

... e atrás dessa mesa, senta muito tesa, numa cadeira idêntica a primeira, uma garota loura, talvez muito bonita e sofisticada, impessoal, de jaleco de enfermeira num branco resplandescente, os olhos dissimulados por óculos escuros, que ajudam, sem dúvida, a suportar a claridade intensa, branca como todo o resto e refletida em todos os lados pelas paredes imaculadas... pp. 19 ...cabeleira ruiva que oferece seu explendor bem na minha frente. Imediatamente uma idéia atravessa-me, de que se trata de uma armadilha : o sorriso muito sensual é cumplice desta pequena caída do céu, num simples e pequeno anúncio de quem, até agora, não sei senão seu prenome : Joan, o vestido curtíssimo e muito decotado, de fina seda cor de esmeralda que se move com bastante docilidade na carne tenra e firme, doce, nervosa, como se estivesse inconstantemente veladas por estas algas verdes com reflexos movediços, brandas vagas que se movem lentamente ao capricho de correntes sorrateiras, corpo imóvel meio oculto nas algas, ondulando por si mesmo apenas por instantes, pronto para dobrar-se em torsões repentinas, violentas, pronto a se abrir numa boca mole e ávida nas dobras complicadas, certas, multiformes, remodeladas continuamente pelas novas excrecências ou invaginações, mas que conservam a despeito de suas sinuosidades, uma constante simetria bilateral... pp. 41

...Ela tornou a sair  em seguida no seu próprio carro a fim de voltar a casa e mudar de roupa : tomou um banho, lavou os cabelos, perfumou o corpo e se pintou com cuidado; em seguida resolveu passar a ferro o vestido de seda verde que deveria vestir aquela noite...
Joan está então a esta hora em casa, pensando em cuidar  de passar tranquilamente seu vestido, olhando distraidamente para o programa da noite na tela da televisão. Como a sala de estar está aquecida, ela não acha necessário meter-se num ‘peignoir' ou quimono qualquer ao sair do banheiro. Pôs somente os sapatinhos de couro verde de salto alto e meias pretas, garnecidas de estreitos franzidos de renda cor de rosa à guisa de liga no alto das coxas... pp. 48 ...pouco sensível a essa atenção, em tais circunstâncias, a garota que esteve o tempo todo de mãos para o alto, acima de de sua cabeleira ruiva, derramada em anéis em desordem graciosa (ou provocante), encosta-se na parede de vidro, abrindo desmesuradamente os olhos verdes cheios de espanto (ou terror, ou estupor, etc..) “Vejo que já preparou alguns instrumentos” ajunta com sorriso delicado o homem que mantém o cano da arma apontado para a prisioneira, indicando-lhe  com um movimento de cabeça, a mesa de passar roupa, a tesoura brilhante de pontas agudas, assim como o ferro elétrico que começa a fumegar no vestido verde de seda...”Vou começar por violá-la” diz. “Eu o farei, sem dúvida ainda em seguida ao curso do interrogatório, como recomendam as instruções, mas desejo possuí-la antes de amarrá-la”... “Você será torturada até a morte, segundo previsto na sua condenação”... pp. 62