COTIDIANO MODERNO DAS CIDADES

Francisco César Filho

Poema cinematográfico de cunho futurista, São Paulo, a Symphonia da Metrópole é obra de dois imigrantes húngaros apaixonados pela cidade de São Paulo, então em pleno apogeu de seu crescimento. O documentário de Adalberto Kemeny e Rudolpho Rex Lustig alinha-se à vertente de vanguarda da década de 1920 voltados ao cotidiano moderno das cidades. Assim como “Moscou” (Mikhail Kaufman, 1929) ou “Berlim, Sinfonia de Uma Cidade” (Walter Ruttmann, 1927), baseia-se em métodos de Dziga Vertov (filme de montagem, “cinemaolho”, “vida de improviso”) e acompanha a vida e o ritmo de uma metrópole durante o período de um dia.

Bondes elétricos, automóveis e pedestres disputam espaço nas ruas do centro da cidade, indústrias entram em funcionamento, estradas são abertas, vendedores de jornais gritam as manchetes do dia – o burburinho do cotidiano paulistano é visto em São Paulo, A Symphonia da Metrópole através de enquadramentos vigorosos e surpreendentes efeitos de trucagens e fusões. Técnicos experientes (trabalharam em laboratórios na Hungria e na UFA de Berlim) Lustig e Kemeny driblavam a falta de equipamentos apropriados com inventividade; para conseguir o efeito de uma mesma imagem multiplicada na tela, raspavam um pedaço de madeira, obtendo concavidades nas quais eram colados pequeninos pedaços de espelho.

Documentário de imagens valiosas, São Paulo, A Symphonia da Metrópole registra locais emblemáticos da cidade – como a Praça da Sé ainda sem a Catedral ou o extinto Belvedere do Trianon – ao mesmo tempo que informa sobre os costumes de sua população, desde o vestuário até a alimentação. Documentário de narrativa moderna, São Paulo, A Symphonia da Metrópole inocrpora letreiros espirituosos, pequenas encenações pedagógicas, sequências surrealistas e uma inacreditável reconstituição do Grito do Ipiranga.

Clássico do cinema brasileiro pouco visto nas últimas décadas, com sua recuperação volta à circulação aquele que é, junto com o consagrado “Limite” de Mário Peixoto, “a melhor contribuição para a avant-gard internacional” segundo o crítico José Luiz Vieira.

São Paulo, A Symphonia da Metrópole

70 min, documentário, 35 mm, preto & branco, mudo, São Paulo, 1929.

direção : Rudolpho Lustig & Adalberto Kemeny

roteiro : Adalberto Kemeny.

fotografia : Rudolpho Lustig & Adalberto Kemeny

letreiros : Niraldo Ambra & João Quadros Júnior

lançamento original : 6 de Setembro de 1929 na Sala Paramount, São Paulo.

 
 
 

UMA DEMOLIÇÃO SONORA

Livio Tragtenberg & Wilson Sukorski

O filme : São Paulo, A Symphonia da Metrópole (SPASM) = espasmo. Um espasmo de futurismo, contemporâneo de seu tempo, um espasmo pós-semana modernista e pré “crack”de 29.

O som das promessas cumpridas e depois frustadas, uma metrópole gigante de boca gigante. Os sons e as vozes da São Paulo do Progresso, do Excesso e da Miséria. A Demolição Sonora é uma compulsão de sons, ruídos e vozes colidindo com as imagens delirantes de uma São Paulo que iria se construir. Os olhos arregalados de uma metrópole que se desconhecia. Os ouvidos saturados por um ruído incessante que perfura nossas existências, silenciosas. Esse é o trajeto de nossa Demolição : fazer soar por todos os meios e instrumentos o canto engasgado do coral anônimo da indiferença.

Cidade de celulóide. Cidade jam-calhambeque. Cidade de altos martinellis. Cidade zepelin. Cidade presidiária. Cidade caleidoscópica. Cidade cena de film. Um tratamento sonoro que não diferencia, se alimenta do próprio excesso. Perdulário, digere as naturezas várias.

Instrumentos mecânicos, motores, sirenes, martelo, água, areia, pedra, madeira, metais, tubos, saxofones, guitarras, theremin, teclados, computadores : uma orquestra de Brancaleone urbana. Parceiros numa mesma história, sonora urbana.

UMA DEMOLIÇÃO SONORA DE LIVIO TRAGTENBERG & WILSON SUKORSKI - 1997.

Livio Tragtenberg : saxofones, teclado, computador e coisas sonoras.

Wilson Sukorski : theremin, teclados, computador, peixe, gran corda, motores e coisas sonoras.

Lucila Tragtenberg : canto

vozes : Fausto Chermont, Francisco César Filho, Lucila Tragtenberg, Malú Bierrenbach e Mika Winiaver.

voz de criança : Jan Pagenotto Sukorski

operação de áudio : Maurício Bonito

massa sonora gravada no estúdio CEM – Centro Experimental de Música do SESC Consolação em Janeiro de 1997, São Paulo.

massa sonora reprocessada nos estúdios da Demolições Musicais em Dezembro / Janeiro de 1997, São Paulo.

agradecimentos : José Menezes Neto, Sérgio Pinto e Walter Macedo Filho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

UM MARCO PARA A CINEMATECA BRASILEIRA

  Tania Savietto

Um anúncio de lançamento de São Paulo, A Symphonia da Metrópole em 1929 conclamava os espectadores através do apelo patriótico ao afirmar sobre a película “ é a alma da cidade que você fez com seu trabalho, cantando ao ritmo maravilhoso do mais formidável progresso. O romance da cidade, a labuta diária da grande massa anônima, que uma objetiva apanhou em flagrantes preciosos, sempre habilmente escondida dos olhos do grande público. É uma visão quase fantástica que se desenrola aos nossos olhos como um sonho, ora alegre, ora triste, mas sempre agradável porque mostra a cidade que nós construímos para orgulho nosso e para a glória e exemplo do Brasil novo !

Esse filme é considerado marco inicial de uma tradição do cinema paulista : o cinema urbano, que prossegue nas obras de Walter Hugo Khouri (Noite Vazia), Luiz Sérgio Person (São Paulo S/A), Carlos Reichenbach (Anjos do Arrabalde, Alma Corsária), Chico Botelho (Cidade Oculta), Roberto Santos (O Grande Momento), Wilson Barros (Anjos da Noite), etc. São filmes que têm como tema e/ou pano de fundo a grande metrópole, os personagens que nela convivem e suas histórias.

O restauro de São Paulo, A Symphonia da Metrópole possível graças ao patrocínio do SESC, é também um marco para a Cinemateca Brasileira, pois com ele retomamos o funcionamento de nosso laboratório cinematográfico. Entre os 23 filmes recuperados no último ano, é o mais antigo, o mais complexo e o único feito inteiramente dentro do nosso laboratório, na nova sede.

Com esta apresentação especial em cópia nova e música ao vivo, composta por Livio Tragtenberg e Wilson Sukorski, a Cinemateca Brasileira e o SESC têm agora a oportunidade de restituir à cidade de São Paulo uma parte de sua história recente.

CINEMATECA BRASILEIRA

coordenação : Tania Savietto

produção : Raphael Messias Filho e Wagner Carvalho

laudo dos materiais : Maria Fernanda Coelho

revisão dos negativos : Elisabete da Silva

foto : Ana Viegas e Anita Miriam Hirschbruch

laboratório de restauro :

Patrícia De Filippi – coordenação

Carlos Eduardo Freitas – coordenador assistente

Leo Aquino de Barros – copista

Luis Carlos Pelucio – revelação

Dalton Rodrigues e Alexandre Kozemeken – mecânica e elétrica

agradecimentos : Celso Ebehardt, Roberto Verzini, Marco Antonio da Costa/CAAL.

 
 

São Paulo, a Symphonia da Metrópole

Danilo Santos de Miranda

Diretor Regional do SESC no Estado de São Paulo

Em fevereiro de 1929, a Rex Filmes lançava na Sala Paramount um dos maiores clássicos do cinema documental, São Paulo, a Symphonia da Metrópole , realizado pelos imigrantes húngaros Adalberto Kemeny e Rudolpho Rex Lustig. Em 1997, uma parceria entre o Sesc de São Paulo e a Cinemateca Brasileira permitiu sua completa restauração.

Para o cinema europeu de vanguarda, a vida e cotidiano das cidades modernas constituiu, nos anos 20, um dos principais temas. Em São Paulo, o surto cafeeiro impôs um ritmo de desenvolvimento expressivo à cidade, que adquire em poucos anos ares de metrópole.

A fotografia em preto e branco de São Paulo, a Symphonia da Metrópole trouxe às telas imagens conhecidas da cidade: homens e mulheres num fluxo constante por ruas e praças, o ritmo do trabalho e da automatização, a moda e os costumes de imigrantes e nordestinos, a fragmentação visual produzida por um enquadramento carregado de fusões e as sensações forjadas pelo progresso.

No apogeu do cinema mudo, os músicos contracenavam com a película ao executar ao vivo a trilha sonora dos filmes. O universo urbano ordenado para o trabalho foi recriado, neste CD, por Lívio Tragtenberg e Wilson Sukorski, integrando cena, música e ruídos para compor a diversidade sonora da cidade.

São Paulo, a Symphonia da Metrópole é mais um exemplo do compromisso firmado pelo Sesc de São Paulo com a preservação e a difusão de diferentes manifestações culturais.

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC

Administração Regional do Estado de São Paulo

Presidente do Conselho Regional : Abram Szajman

Diretor do Departamento Regional : Danilo Santos de Miranda

Superintendente Técnico Social : Jesus Vazquez Pereira

Gerente de Apoio Operacional : Estanislau da Silva Salles / Ivan Paulo Gianinni

Gerente do CineSesc : Luiz Alberto Santana Zakir

SÃO PAULO, A SYMPHONIA DA METRÓPOLE - SESC

organização e produção : Luiz Alberto Santana Zakir, Denise Martha e equipe do CineSesc.

assessoria de imprensa : Ana Maria de Cerqueira Leite