| As palavras inarticuladas
da loucura não suscitam o verdadeiro e o falso, pode-se dizer serem
elas uma fala originária numa lógica pré-reflexiva,
ou melhor, originária e primordial. Sempre significam mais ou menos
do que se espera delas. A fala do louco é sempre excessiva, como
a linguagem dos místicos que ousam se dirigir a Deus de igual para
igual. É uma palavra próxima à da poesia quando a
palavra não recobre as coisas, é ainda um desejo sem objeto
de desejo como uma felicidade ou uma tristeza sem causa.
Olgária Matos
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| Nós, Sergio Penna, diretor e pesquisador
teatral e Wilson Sukorski, compositor e músico eletrônico,
formamos a Pazzo a Pazzo, juntamente com Guido Leonarduzzi, ator e acompanhante
terapêutico de Trieste - Itália e Silvana Matteussi, produtora.
Ao longo de quatro anos, desenvolvemos o conceito de Arte Limite,
investigando artisticamente a linguagem emergente de grupos especiais:
portadores da Síndrome de Down e pacientes de serviços de
saúde mental.
No limite da arte, temos de um lado uma lógica linear, um conhecimento intelectualizado e a consciência crítica, e de outro um movimento entrópico, pleno de anárquicas possibilidades (dimensões infinitas do possível) trazendo consigo a experiência trágica por excelência. As situações limites vividas entre extremos, o riso e o choro, o grito e o silêncio, a ordem a e anarquia, o real e o absurdo, trazem à tona discursos aparentemente frágeis e desconexos, fragmentações, citações, vislumbres, debilidades e delírios, formando um todo aparentemente desarticulado e ineficiente. Estes discursos, a princípio tautológicos, desde que observados com tato e atenção, podem revelar linguagens com lógicas próprias, rituais expressivos, vocabulário e sintaxe originais, numa busca intrínseca de comunicação. Nosso percurso com a Arte Limite, iniciou-se em 1994 quando realizamos dois programas de rádio com adolescentes portadores da Síndrome de Down, que freqüentavam a escola Cadi de São Paulo - Centro de Apoio ao Desenvolvimento Integral do Down. O Down tem um espaço de expressão extremamente reduzido na sociedade. Sua área de atuação costuma restringir-se ao eixo casa - instituição. Os demais espaços sociais são cenários, nos quais ele é apenas um espectador sem direito a voz. A experiência com trinta e três jovens, vinha a romper com isto. Partindo de uma proposta construtivista
da escola, onde o aluno é sujeito de sua aprendizagem, apreendendo
as novas informações através de uma rede de analogias,
a partir de um conhecimento que ele já transporta consigo, os programas
foram criados dentro de uma abordagem ?work in progress?.
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| Ele usava palavras quaisquer,
do dia-a-dia, e as destruía. Elas tornavam-se como que moléculas,
mudando sem parar, quebrando-se em pedaços o tempo todo, palavras
multifacetadas, não como uma linguagem morta, mas como uma rocha
se desintegrando. Ele estava sempre redefinido códigos.
Robert
Wilson
(sobre a poesia da criança autista Christopher Knowles) |
| Após esta experiência, fomos
convidados pelo Grupo Biruta de Artes Cênicas (ONG sediada em Santos,
que lida com aspectos de qualidade de vida de pacientes usuários
de serviços de saúde mental), a realizar um projeto de teatro
e música.
Mergulhar na expressividade artística da loucura, foi como mergulhar na cena original e no tempo original: o movimento que se repete, o olhar melancólico, o andar em volta do mesmo ponto, a risada generosa, o texto entre o siso e o improviso, frágeis detalhes que desvelam fortes emoções. São pensamentos que formam delicados poemas. Um tempo de falar diferente do tempo de pensar provocando solidões clownescas. Um tempo elástico por excelência, que se distende ou se comprime em ondas regidas por puro acaso. Uma descontinuidade em movimentos impregnados de paixão. Um pré-texto: fonemas não-semantizados revelados como desejo pueril e sopro de psique. Uma proto-linguagem. É de 1995 o espetáculo teatral ?Ulikses? apresentado no SESC Pompéia - SP, Teatro do SESI - Santos - SP e Pier do Gonzaguinha - São Vicente - SP, uma singular adaptação da Odisséia Homérica, com pacientes do Serviço de Saúde Mental de Santos. Em cena, o herói, não sem razão, modifica o mito e entrega-se às sereias. O périplo de Ulisses, dominado pela razão e pela astúcia, é subvertido por uma outra lógica e por outros desejos. O Ulisses louco não quer somente escutar o canto, quer também o encontro e o prazer, e além de tudo sobreviver e retornar aos braços da amada Penelope. As tragédias e mitos pessoais encontrando-se com as tragédias e mitos universais. A subversão dos discursos convencionais e a irrupção de lógicas insólitas. Nesta época, nosso trabalho estendeu-se para a cidade de São Vicente. Criamos com pacientes do Núcleo de Atenção Psicossocial, o espetáculo ?Mito e Loucura, Um Ritual Cênico? (1996, Espaço Casa do Barão - São Vicente-SP). A atmosfera mágica do mito Demeter e Persefone é confrontada com a realidade do cotidiano dos pacientes. Logo após um homicídio seguido de suicídio, ocorridos dentro do Hospital-Dia, é proposta uma montagem teatral que pudesse resgatar simbolicamente a tragédia. Surge então, um ritual cênico onde morte e renascimento são relacionados com a origem mítica das estações do ano. A deusa Demeter, desesperada com o rapto de sua filha, espalha a tristeza na natureza trazendo o outono e o inverno. Quando Persefone retorna ao convívio da mãe, a natureza renasce com a primavera e o verão. |
| Ficava cada vez mais claro que a Arte
Limite existe antes de sua contextualização artística:
há uma dramaticidade que precede a interpretação dos
atores. Assim, o ator é o não ator e o músico é
o não músico. É um artista essencialmente performer.
Nesse caso, o artista é também linguagem. Sua obra inclui
seu corpo, sua voz e seu imaginário. Uma assinatura pessoal e intransferível.
A partir de 1997, agora em São Paulo, no Hospital Dia A Casa, em projeto coordenado pelo filósofo Peter Pál Pelbart e pelas psicanalistas Renata Puliti e Paula Francisquetti, co-dirigimos ao lado do encenador Renato Cohen, um trabalho com pacientes desta instituição. É deste ano o espetáculo ?Ueinzz, Uma Viagem a Babel?, apresentado no Tuca Arena e Teatro Oficina - SP. Diferentes universos internos propiciavam uma multiplicidade de linguagens, em torno da busca da Torre de Babel: provações, desafios e conquistas. Em 1998, criamos ?Dedalus? encenado no Centro Cultural São Paulo, sala Jardel Filho, dentro do projeto Poéticas do Inconsciente - Três Noites no Limite da Arte, promovido pela Pazzo a Pazzo, que reunia palestras, espetáculos e exibição de vídeos. A apaixonada viagem de Orfeu aos infernos em busca de Eurídice, o destino traçado, o mapa pessoal, os caminhos do labirinto, as asas de Dédalo, formavam o roteiro. Ainda dentro do projeto Poéticas
do Inconsciente, apresentamos ?EmMiMesmado?, onde, a partir da gravura
Melancolia do artista alemão Dürer, traçou-se um delicado
painel cênico e sonoro dos mitos pessoais de atores que são
pacientes de serviços de saúde mental de Santos e de São
Vicente.
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| O discurso de quem ?fala
em línguas? é ininteligível, mas não carece
de forma. Pelo contrário: oferece-se à nossa percepção
como uma forma verbal pura. É uma arquitetura de sons edificada
como a linguagem rítmica do poema.
Octavio Paz
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| A arte contemporânea pode abrigar
a linguagem destes artistas absolutamente singulares, com uma força
expressiva em cada gesto e palavra, plena de tragédias, lirismos
e situações cômicas.
No limite entre arte e vida, encontra-se o instante criativo da cena contemporânea. Referindo-se ainda à mitologia grega, as Musas, filhas da Memória, esta filha do Céu e da Terra na união com Zeus, trazem o som, o nome, a palavra ao homem/poeta. Antes só havia a Noite, filha do Caos, o não nomeado, o não ser. Nesta indicação, o Dia e a Aurora surgem com os cantos poéticos. Interessante notar a ligação com o supostamente caótico e desconectado discurso de artistas especiais, loucos e downs. Não estariam eles envoltos numa noite simbólica, precisando retomar mitos cosmogônicos e re-criarem o (seu) universo a partir do som e da luz, da música e do teatro? |
| GlossoLalias - A Loucura
Fala
Glossolalia : S, f, Dom sobrenatural de
falar línguas desconhecidas. (Dicionário Aurélio)
Programa de Sérgio Penna (roteiro e direção de atores) e Wilson Sukorski (músicas e áudio digital). Produção Silvana Mateussi. Realização Pazzo a Pazzo e Rádio Cultura FM de São Paulo em março 98. Montagem digital : Estúdio2 da Demolições Musicais Ltda. Descrição Técnica : Material sonoro recolhido em DAT Sony TCD-D7 em 48 kHz e microfone AKG 404, nos serviços de saúde mental de Santos, São Vicente e no hospital-dia ?A Casa? em São Paulo. Pré-montagem e processamento de áudio em computador para a criação das vinhetas, coros, colagens, narrações e canções - programa Sound Forge 4.0 com plug-ins Noise Reduction \ Qsound. As trilhas instrumentais e eletrônicas foram montadas em computador com os programas : CakeWalk Pro Audio (Midi instrumental); Csound - programa de síntese digital via software e Granny Granular Synthesis Lab (transformações e pedais eletrônicos). Instrumentos de apoio : Rodas, Gran Cordas e Peixe (criação de W.Sukorski). Locuções institucionais e poemas gravados em DAT nos estúdios da Rádio Cultura FM com microfones Newmann U87. Montagem final em multipista digital (16 canais) através do programa Samplitude. Mixagem digital e master gravado em DAT Tascam DA20 e CDR via placa de áudio Turtle Beach Fiji - i/o digital - Estúdio2 da Demolições Musicais Ltda. Duração
total : 49?12.
GlossoLalias - Roteiro Estrutural 1. Porta 1 : Locutora Cultura (Música
: Paralelos I).
(Música : Cria Terra) 6. Porta 2 : Hugo Ball (Arthumiro e Jorge)
e Raul Hausmann (Pedro e Arthumiro) (Tema Beta : marimba & eletrônica)
(Tema Alpha solo) 9. Porta 3 : Sereias e ficções
:
10. Intermezzo : Locutora meio do
programa - Música : Paralelos I (excerto)
12. Canção : A loucura fala a fala da loucura... (Sílvia Handro) 13. Porta 4 : Coro de Marinheiros
/ Solo texto : bigorna (Ono 2)
15. Musica : Ueinzz?s song II 16. Olgária Mattos 2 : texto : Ueinzz
(insert na musica)
17. GlossoLalia Pura 2 : Ueinzz solo. 18. Porta 5 : Antonin Artaud - Arthumiro
(parte 1), Willer (parte 2), juntos : Rataras). Tema Teta - mais
calmo...
20. Texto : A verdade por Arthumiro
24. Créditos finais locutora Cultura (c/musica da abertura) FIM
(Abertura) locutora: Pazzo a Pazzo e Rádio Cultura FM apresentam: Glossolalias A Loucura Fala Um programa de Sergio Penna e Wilson Sukorski (Créditos finais)
(ficha técnica Rádio Cultura)
Um programa de Sergio Penna e Wilson Sukorski |